FERAS DO DIREITO
Quem são e como avançam no mercado corporativo as advogadas paulistanas ? frente de grandes escritórios.
Revista Exame
2004 - 15/12/2004
Por Silvia Campolim

“Desbravei meu caminho sozinha”

Sonia Marques Döbler

Idade: 52 anos

Estado civil: divorciada, sem filhos.

Honorários: 350 reais por hora

O direito é... “a arte da convivência.” Ouvi essa definição na minha primeira aula com o professor Gofredo da Silva Telles e nunca mais esqueci.”

Do que mais se orgulha: “Ter entrado na profissão numa época em que era muito difícil para qualquer mulher começar e ser hoje uma das raras advogadas que é titular de sua banca. Desbravei meu caminho sozinha”.

Viver perigosamente: “Em São Paulo nunca saio com o próprio carro a noite, para evitar assaltos. Prefiro o serviço de motorista particular.”

Nos eixos: “Tenho uma vida gratificante. Encontro meus amigos, freqüento bons restaurantes e viajo para onde quero sempre que posso. Gosto de lugares exóticos, como Marrocos ou São Pedro, no deserto de Atacama, no Chile. Aproveito essas viagens para comprar antiguidades.”

A nomeação, no final de outubro, de uma mulher para ocupar uma cadeira no Supremo Tribunal Federal – a juíza carioca Ellen Gracie Northfleet, que substituiu o recém-aposentado ministro Luiz Octávio Galotti – foi um acontecimento sem precedentes na história do Poder Judiciário no Brasil. Mas a novidade não causou sensação no mundo corporativo de São Paulo. O time dos cobras do direito já se habituou a ter em suas fileiras estrelas de salto alto e batom. Especialistas em direito comercial e societário, legislação de fusões e aquisições, telecomunicações e internet, elas circulam com desenvolvimento nas rodas em que são fechados grandes negócios. Algumas se destacam pelo tino empreendedor. São as chefonas que batizam escritórios renomados, com uma carteira de clientes de porte internacional. Gente como Sonia Marques Döbler, que está cuidando da aprovação no Cadê da operação brasileira da Aventis, resultante da fusão mundial entre a francesa Rhône-Poulenc e a alemã Hoeschst. A maior parte da clientela de Sonia Döbler Advogados é de subsidiárias alemãs da indústria química e farmacêutica. Sonia é fluente no idioma alemão. Trabalhou mais de 20 anos na Hoechst antes de alçar vôo próprio e abrir sua própria banca, cinco anos atrás.

Em meados de outubro, Sonia comemorava a aprovação, pelo Cadê, dos negócios agrícolas da fusão. Em meados de novembro foi aprovada a operação na área farmacêutica. Com uma receita anual de 1,15 bilhão de dólares, a Aventis Pharma lidera a produção de medicamentos vendidos com receitas na América Latina. Mestre em direito econômico e financeiro pela USP, Sonia está à frente de uma equipe de 15 advogados. Apenas dois do sexo masculinos. “Vivemos o tempo todo sob a pressão de prazos exíguos”, diz Sonia. “Varamos noites e emendamos o fim de semana para concluir um trabalho. As mulheres talvez agüentem melhor esse ritmo.”

Talvez sim, talvez não. O fato é que cresce em progressão geométrica a proporção de mulheres advogadas em São Paulo – especialmente na área de serviços corporativos. São mulheres mais de 40% dos 78 000 profissionais na Grande São Paulo inscritos na Ordem dos Advogados do Brasil. O número de estagiárias inscritas já bateu o dos colegas: 55%. A participação feminina na magistratura paulista aponta na mesma direção. As mulheres togadas ainda são minoria, tanto na Justiça do Trabalho, onde ocupam 34% das vagas, como na Justiça comum (18%) e na Federal (15%). Mas, a cada novo concurso, ampliam sua presença. No penúltimo, ficaram com 53 dos 84 cargos de juízes. E, no mais recente, com pouco mais da metade das 70 vagas. Avanço notável: em meados da década de 80, ainda era visível a resistência à admissão de mulheres nos concursos da magistratura.

Achava-se que não coseguiriam conciliar a vida doméstica com as exigências da carreira – por exemplo, a necessidade de mudar de cidade com freqüência. A propósito: a proibição do uso de calças compridas em recintos como o Palácio da Justiça e demais prédios dos fóruns da capital só caiu em abril passado. No Supremo Tribunal Federal, em Brasília, a decisão de liberar as mulheres para “transitar nas dependências do STF, inclusive no plenário, trajando calça comprida social com blazer”, conforme estabelece a portaria, foi adotada em maio. Ambas as proibições datavam de 1828.

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